Curitiba, 20 de Outubro de 2017.
15:53

A Encruzilhada

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Edição 61

LETICIA POLYDORO

Para aqueles que, assim como eu, viveram intensamente os anos 80, comento sobre um filme muito bacana estrelado pelo jovem e promissor ator Ralph Macchio, mais conhecido como Karatê Kid (alguém ainda lembra?), chamado A Encruzilhada (Crossroads, no original). Na trama, um road-blues-movie, o nosso herói entra numa jornada de transformação e auto descoberta através da música e, lá pelas tantas, precisa escolher: seguir o caminho tradicional e conhecido da música clássica ou aventurar-se pelo desconhecido, e ao mesmo tempo fascinante, mundo do blues. A escolha parece óbvia, até porque senão o filme não teria muita graça. Mas, sem mais spoilers, recomendo assistir, pois o filme ainda vale muito a pena – principalmente pelo duelo entre Steve Vai e Ry Cooder, os dois ilustres "dubladores de guitarras" dos astros principais.
    Aliás, muito interessantes os anos 80. Aluguei esse filme na locadora para poder assisti-lo. Era uma época bem diferente da atual, na qual enxergávamos o mundo através de nossos óculos Ray-Bans espelhados. Adorávamos receber CDs de presente de aniversário e, quando íamos viajar, precisávamos escolher se tiraríamos 12, 24 ou 36 fotos – e ainda torcer para que o filme não queimasse.
    Os anos 80 ficaram na memória, estamos agora em uma nova era. Não existem praticamente mais locadoras, CDs e filmes fotográficos, exceto em alguns nichos muito específicos. O que existe agora é a multidisciplinaridade, a diversidade, a transformação constante. O mundo, na minha opinião, ficou mais interessante, mas também bem mais complexo de se decifrar. E os negócios, como ficaram neste contexto? Nós, que atuamos na área da Tecnologia da Informação, de certa forma somos privilegiados. Afinal, o mundo está cada vez mais virtual. Nós somos, sem dúvida, uma necessidade.
    Ocorre que, assim como o personagem do filme citado, estamos também em uma encruzilhada. Até os anos 80 a vida era simples: vivíamos felizes com nossas interfaces caractere e cartões perfurados. O indivíduo do outro lado da tela era como a gente – uma pessoa treinada em tecnologia. Mas a partir dos anos 80 passou a existir ele: o Usuário. Esse cara estragou a nossa felicidade. Desde então nossa vida nunca mais foi a mesma. No início o menosprezamos por sua incapacidade de entender coisas que para nós eram simples. Colocamos barreiras, elaboramos estratégias para nos proteger. Mas eles foram aumentando assustadoramente de forma exponencial: eram centenas, passaram a milhares, agora são milhões e, socorro, em breve serão bilhões! Está impossível de manter a barreira erguida. Resistimos bravamente, mas – sinto muito – perdemos a guerra.
    Agora é mudar ou perecer, essa é a nossa encruzilhada. Até aqui sobrevivemos. Mas se queremos fazer parte do cenário futuro, precisamos optar por abrir as portas e entender a grande transformação pela qual estamos atravessando. Pelo menos naquilo que diz respeito ao nosso mercado. Não queremos pertencer à categoria das locadoras, lojas de CDs e fabricantes de filmes. Precisamos ser protagonistas nesse contexto. E isso só é possível transcendendo os limites até agora conhecidos da tecnologia propriamente dita. O usuário está ao seu lado. Você, inclusive, é um deles. Não é assim tão difícil. O que você busca? O que você deseja? Qual a experiência que lhe trará maior satisfação? E é esse o ponto em que eu gostaria de chegar: a experiência. Hoje ela é fundamental para o sucesso de qualquer produto de tecnologia, a chamada experiência de usuário (User Experience / UX). Foi apostando nela que novas marcas líderes surgiram no mercado. Spotify, Netflix e Whatsapp, por exemplo, tornaram-se o que são porque apostaram na experiência e utilizaram a tecnologia com forma de viabilizá-la.
    Mesmo que não nos tornemos uma marca tão grande quanto as que citei (tomara até que sim), podemos ainda melhorar muito dentro do nosso próprio negócio. Com isso, faço um apelo a todos que atuam na área de Tecnologia da Informação: busquem o lado desafiador da encruzilhada, partam para o desconhecido, pois ali é que está o futuro.


Nota: Para ajudar a dar início a esse processo de mudança, estou coordenando uma iniciativa da qual convido todos a participar: o Núcleo de UX da Assespro-RS. Será um espaço de oxigenação, transformação e também de ações práticas para incorporar o design de experiência em projetos de tecnologia. Conto com vocês! Informações em http://www.assespro-rs.org.br/nucleo-de-ux.

Letícia Polydoro é diretora da Hypervisual, empresa pioneira em UX no mercado nacional, Consultora do SEBRAE-RS, VP em Design de Interação da Assespro-RS, Coordenadora do GUIX — Grupo de Usuários em UI e UX da SUCESU-RS e Idealizadora do Núcleo de UX da Assespro-RS.



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