Curitiba, 02 de Agosto de 2017.
09:36

Empreendendo com as tecnologias:

Um case de sucesso

Edição 60

MAURÍCIO RICARDO


Quando o chargista e animador Maurício Ricardo trocou os jornais de papel em Uberlândia (MG) pelas plataformas eletrônicas, pouca gente no Brasil achava possível viver produzindo apenas conteúdo digital. Seu site, Charges.com.br, estreou em fevereiro de 2000 e o sucesso foi imediato. Mais de 17 anos depois, os vídeos ultrapassam 10 milhões de visualizações mensais e o número de inscritos no recém lançado canal oficial no YouTube cresce na média de 1 mil inscritos dia. Nada mal num mercado onde poucos chegam para ficar.
Maurício acumulou prêmios importantes, como “Empreendedor do ano” da revista Info Exame e vários i-Bests. Sua capacidade de criar desenhos animados sozinho, assumindo inclusive a sonorização, as vozes e a interpretação das paródias, foi rapidamente reconhecida. “Posso dizer sem medo de errar que os meus desenhos foram o primeiro produto da Internet brasileira a ir para a televisão. Hoje é comum você ver YouTubers e humoristas seguindo este caminho. Mas no final de 2000, quando tive meu primeiro contrato com a TV Globo, o que existia era apenas o contrário: jornais e TVs alimentando seus sites”.
Parceiro do portal UOL e contratado da Globo (atuou em 13 edições do Big Brother Brasil e hoje assina animações esporádicas para outros produtos da casa), Maurício Ricardo continua morando em Uberlândia, produzindo mais de 10 minutos de desenhos semanalmente com a ajuda de três animadores contratados.
“Quando o site estreou muito pouca gente tinha Internet em casa”, relembra. “Tanto que o meu primeiro público cativo foram os estudantes de computação, que acessavam a rede nos laboratórios das universidades”. 

CONTEÚDO E PLATAFORMA

Maurício se lembra dos convites para as primeiras palestras em faculdades. E do certo desconforto que sentia: “Eu sempre me vi como um produtor de conteúdo e não entendia porque o interesse pelo meu trabalho partia do pessoal ligado à aos cursos de Programação e Informática, não Comunicação Social. Hoje eu sei que a razão era simples: a Internet ainda não estava no 'radar' dos jornalistas”, avalia.
De fato, com o passar dos anos e a popularização da Internet, o conteúdo multimídia ganhou um novo status. E se nessas quase duas décadas online muita coisa mudou na vida e nos negócios do cartunista, uma realidade permanece: a grande ferramenta de divulgação do trabalho de Maurício Ricardo continua sendo a viralização orgânica, ou seja, o compartilhamento do próprio público, sem impulsionamento através de anúncios.

“Não havia redes sociais quando me lancei neste mercado. Mas eu permitia que as pessoas baixassem as charges e enviassem para outros internautas por e-mail. Foi graças a esta difusão por amizade que mais e mais gente passou a procurar a fonte dos desenhos - o meu website, e foi assim que se formou uma audiência sólida”, conta. Hoje o e-mail, segundo Maurício Ricardo, foi substituído por ferramentas como o Facebook, o Instagram, o Twitter e o WhatsApp. Mas a essência – pessoas compartilhando as animações e vídeos – continua a mesma.

Recentemente o chargista – que também  grava vídeos opinativos muito antes de palavras como vlogger ou YouTuber se popularizarem  - viu um de seus comentários chamar a atenção do país através do WhatsApp. Era um desabafo sobre a dificuldade de ser empreendedor no Brasil.  “Impossível saber quantas pessoas o vídeo alcançou, mas cheguei a ser reconhecido por causa dele por um motorista da Uber em São Paulo”, conta.
Incontáveis charges de Maurício também se espalharam pelo WhatsApp ou por posts não oficiais no Facebook. Um reconhecimento bem-vindo, mas que preocupa o chargista.
“Claro que maravilhoso poder falar e ser ouvido por milhões de pessoas, mas o WhatsApp é comparável a uma 'deep web': uma vez que seu vídeo cai no aplicativo, impossível mensurar o alcance. Lamentavelmente, o mesmo acontece no Facebook. A maior rede social do mundo não oferece aos produtores de conteúdo uma ferramenta simples de busca para localizar os posts não oficiais. Dessa forma, impera a pirataria”, alerta.
Maurício Ricardo conta que já descobriu posts de obras suas no Facebook com até 5 milhões de visualizações. Uma ótima fonte de divulgação, mas um péssimo negócio, segundo o cartunista. “No modelo atual de negócios da Internet, conteúdo e plataforma estão intrinsicamente ligados”, explica. “Cada vez menos se navega pela Internet. As pessoas são seduzidas por poucas grandes corporações para permanecerem nas timelines de suas redes sociais”. Isso, segundo Maurício, obriga o produtor de conteúdo “a ficar refém do modelo de monetização oferecido pelas próprias plataformas, como YouTube. E como as ferramentas para se localizar posts piratas são ineficientes, é também um convite para que pessoas de má fé copiem seu vídeo seu autorização e postem diretamente em suas páginas e canais”, diz.

MOVIMENTO DE TRANSIÇÃO

Vendo o crescimento da pirataria, e sentindo-se impotente para combate-la, Maurício Ricardo só viu uma alternativa: aderir ao sistema. “UOL e eu renegociamos nosso contrato e isso me possibilitou ter o próprio canal no YouTube”, conta.
“Estimo que exista hoje no YouTube mais de 40 mil postagens irregulares de meu material”, acredita o criador do Charges.com.br. “Estando no YouTube eu posso não só canalizar a audiência para um canal oficial como ter acesso a ferramentas que facilitam a denuncia de posts piratas e até a monetização sobre anúncios veiculados neles”.
Para Maurício Ricardo, a Internet mundial está vivendo uma fase transitória. “Era mesmo de se esperar que, com a popularização dos dispositivos móveis, maior velocidade e custo menor, a Internet viesse abocanhar uma parcela gigante da indústria do entretenimento, da mesma forma que vem revolucionando as mais diversas atividades humanas através de aplicativos”, explica. “Mas da mesma forma que os serviços de táxi, o comércio varejista e a telefonia, por exemplo, estão tendo que se reinventar, os veículos de imprensa, concessões públicas de teledifusão e criadores de conteúdo enfrentam uma verdadeira crise existencial e financeira”, acredita Maurício Ricardo.
“É bastante sintomático que as duas maiores empresas de conteúdo hoje, Google – dona do YouTube – e Facebook, não produzam nada de conteúdo”, acredita. “O foco é totalmente voltado para a plataforma. Algoritmos ditam o que o usuário vai ver, a partir da sua própria experiência de navegação. Estes mesmos algoritmos vão incluir na timeline de cada indivíduo o material patrocinado que mantém as operações, com um grau de acerto do público alvo muito maior do que o da televisão ou jornais. Mas qual o compromisso real com a qualidade do que é visto e com as violações de direitos autorais dentro dessa indústria?”, pergunta Maurício Ricardo.


EMPREEDENDO 

Percebendo as incertezas do mercado, e consciente da crescente demanda por programadores criativos e com espírito empreendedor, capazes de aperfeiçoar essas plataformas e criar novos e impensáveis softwares e aplicativos para os mais diversos ramos de atividade impactados pela Internet, Maurício Ricardo resolveu ampliar seu campo de atividade.
“Já há bastante tempo eu vinha procurando uma forma de interagir mais com minha comunidade. Moro em Uberlândia, cheguei a dirigir o maior jornal diário local, sem nunca abrir mão de ser também o seu chargista, mas desde que comecei na Internet, fiquei muito imerso no mundo virtual”, conta.
Ao conhecer a pedagoga Danielle Akemi Jogo, que se tornaria sua esposa, essas inquietações ganharam um foco. “A Dani vinha de uma experiência de mais de cinco anos como educadora no Japão, lecionando em várias cidades e gerindo uma unidade do Pitágoras voltada para a comunidade brasileira. Ela veio para Uberlândia disposta abrir uma escola onde pudesse aplicar alguns dos diferenciais do modelo escolar japonês”, diz Maurício. “Logo concluímos que uma excelente alternativa seria nos unirmos num projeto que ensinasse robótica e programação de computadores para crianças e adolescentes”.
Inspiração, neste novo projeto, foi o que não faltou para Maurício Ricardo. A Sankhya Gestão de Negócios, uma das grandes empresas de tecnologia do país, com foco em ERP, tem sede em Uberlândia. Os fundadores, os irmãos Felipe Calixto Netto e Fábio Túlio Felipe, tocaram numa banda de rock com Maurício nos anos 80 e até hoje são grandes amigos.
 “Conversamos com eles sobre o projeto e percebemos que, sim, a Educação era o caminho”, conta Maurício. Na busca por know-how para atuar num ramo tão específico, ele e Danielle acabaram optando por se unir a uma franquia já existente. “Depois de muita pesquisa, chegamaos à Super Geeks, que tem sede em São Paulo e é a maior escola do País no segmento”, conta o chargista e empreendedor.
A unidade de Uberlândia da Super Geeks, inaugurada em fevereiro, já é um case de sucesso dentro da própria franquia, com número recorde de alunos e antecipação dos projetos de expansão.
Maurício Ricardo garante que o sucesso do empreendimento não o afastará do cartunismo. “Jamais. Enquanto houver gente disposta a ver minhas charges, na Internet ou qualquer outra plataforma, continuarei produzindo. Mas é muito bom ajudar o Brasil a formar mão-de-obra de qualidade, criativa e empreendedora, para atuar em tecnologia. Não podemos e não devemos ser eternos pagadores de royalties, reféns dos gigantes oriundos dos países que levam este mercado gigante a sério”. Maurício diz que continua mantendo seu ritmo frenético de produção. “Mas quando acordo de manhã e me lembro da escola, que está muito bem nas mãos da Dani, me sinto muito mais inspirado”, conclui, com um sorriso. 


Além de desenhar e animar, Maurício Ricardo, fundador do Charges.com.br, canta e toca baixo em diferentes projetos. Nos anos 80 a banda Solo Vertical, formada por ele e pelos irmãos Felipe Calixo e Fábio Tútlio, fundadores da Sankhya, gravou um LP pela multinacional BMG-Ariolla. “Graças ao fracasso do disco o Brasil ganhou um ótimo site de humor e uma excelente empresa de tecnologia”, brinca Maurício.
Já no Charges.com.br, o chargista lançou um outro projeto musical, meados da última década: Os Seminovos. A banda fez muito sucesso na Internet, ganhando os prêmios Web Hit do Ano, da MTV, com a canção “Escolha já seu nerd” e “Garagem do Faustão”. Os Seminovos fizeram shows por todo o Brasil, com destaque para uma apresentação no Vale do Anhangabaú em São Paulo, na Virada Cultural, e outra na Campus Party, também em São Paulo, ambas em 2011.
Suas músicas com temática nerd eram distribuídas gratuitamente em MP3 e tiveram milhões de visualizações no YouTube. Em 2014 “Escolha já seu nerd” foi parte da trilha sonora da novela Geração Brasil, da Rede Globo.
Neste mesmo ano Maurício Ricardo, que não estava conseguindo compatibilizar a agenda de shows com as atividades à frente de seu estúdio de animação, resolveu interromper as atividades da banda.
“Não é um final definitivo. Eu chamaria de longo descanso”, diz Maurício.



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