Curitiba, 20 de Outubro de 2017.
16:15

Maurício da Costa Mello

Entrevista

Edição 61

ENTREVISTA

História pessoal e da empresa

 

Durante a dita década perdida, meus sócios e eu estávamos fazendo uma ampla informatização na gestão da USP. Minha sócia, professora e doutora em física, era a Coordenadora da Administração Geral da USP; meus sócios e eu erámos diretores dos departamentos do Centro de Computação Eletrônica da USP. Aproveitamos esse período também para nossos programas de mestrado e doutorado.

 

Ao final dos anos 80 havíamos desenvolvido um grande conhecimento sobre as melhores práticas de gestão de órgãos públicos em geral e de instituições de ensino, em particular. Ao mesmo tempo já tínhamos desenvolvido nossa primeira ferramenta para geração de boa parte dos sistemas de informação.

 

No começo dos anos 90, resolvemos aproveitar todo esse conhecimento e criar uma empresa especializada em sistemas para gestão de Universidades.

   

Algo sobre inovação e empreendedorismo (a Techne, uma empresa tradicional, se renovando ao lançar uma startup)

 

Não por coincidência, nossa primeira geração de sistemas se destinava a informatizar as Universidades Públicas Federais. Tratava-se do SAU – Sistema de Automação Universitária, desenvolvido em parceria com a Unisys, através um programa de incentivo fiscal. O sistema era oferecido gratuitamente pela Unisys e à Techne cabia a sua implantação.

 

Durante a primeira metade dos anos 90, fizemos implantações em várias Universidades Federais no país. Com isso, adquirimos também um importante conhecimento em metodologias de implantação dos sistemas e também desenvolvemos tecnologia para efetuar customizações de maneira simplificada, pois cada Universidade tinha suas particularidades.

 

Na segunda metade dos anos 90 percebemos que alguns dos sistemas, desenvolvidos para Universidades, poderiam se adaptar também para gestão de prefeituras. Foi assim que conquistamos nossos primeiros clientes nesse mercado. Posteriormente começamos também a atuar em soluções para gestão dos governos estaduais.

 

Nessa época usávamos mainframes e programávamos em Algol e C++.

 

Mas, precisávamos mudar de tecnologia, visto que a arquitetura cliente servidor já mostrava suas inegáveis vantagens.

 

Nosso ingresso na área de saúde foi bem curioso. A Prefeitura de Santos já usava uma boa parte dos nossos sistemas e gostava muito do nosso sistema de Protocolo e Comunicações, que cuidava da tramitação de processos e despachos de toda a gestão da prefeitura. Nessa época, o gestor de TI precisava informatizar a área de saúde e veio com a proposta de adaptarmos o sistema de comunicação para a saúde. Gostamos do desafio e começamos a projetar, o que viria a ser o Hygia, nosso sistema de gestão de saúde.

 

Ao mesmo tempo em que desenvolvíamos nossos sistemas de gestão, mantínhamos também um grande foco no substrato tecnológico para suportá-los. Desenvolvemos várias gerações do nosso framework, que se chamava Cronos.

 

É interessante falar sobre isso. A primeira versão gerava código em Algol. Depois fizemos uma versão em C#, usando como base o Visual Studio da Microsoft.

 

Alguns anos depois, com a aversão do governo a códigos proprietários, desenvolvemos uma nova versão do Cronos para Web em Java. Essa versão foi usada para o desenvolvimento de novas versões dos nossos sistemas de gestão que já estavam sendo utilizados por 20% de todos os funcionários públicos do Brasil e por 2,3 milhões de alunos de Universidades, Faculdades e Escolas em todo o Brasil.

 

Mas, foi com o projeto do CronApp que conseguimos germinar nossa primeira startup dentro da Techne, que a essa altura já era uma empresa de mais de R$ 30 milhões de faturamento anual.

 

A origem do projeto

 

Em 2013 surgiu, através do programa TI Maior da FINEP, a oportunidade de desenvolvermos a mais nova versão do Cronos, que acabou recebendo o nome de CronApp.

 

Através do programa TI Maior, a FINEP estava investindo em várias áreas de inovação. Escolhemos a linha de PaaS, Plataform as a Service, na qual o Brasil tinha interesse em investir para garantir sua participação nesse mercado promissor.

 

Nessa época, os principais players se posicionavam como provedores de IaaS, Infrastructure as a Service. Era o caso da AWS e da Microsoft. A única grande empresa que já tinha uma solução para essa área era a IBM. Seu PaaS, o Bluemix, também foi contemplado com um investimento da FINEP.

 

Na época, nossa ideia era simplesmente gerar uma nova versão do Cronos, que era também o nome do projeto junto à FINEP. No decorrer de seu desenvolvimento, o projeto foi ficando cada vez mais ambicioso e, em um dos nossos muitos “pivotamentos”, rompemos com todo o compromisso que tínhamos de construir o Cronos como sendo uma evolução da nossa plataforma já existente.

 

Essa ruptura, com o tempo, se mostrou muito promissora. Ela abriu janelas de inovação que seriam impossíveis se tivéssemos mantido o compromisso da continuidade. O principal paradigma abandonado foi a tutela que tínhamos em relação aos padrões de desenvolvimento que criava um ambiente muito engessado. Nesse momento, o nosso lema era: “adotar todos os padrões abertos mais modernos de desenvolvimento e frameworks de mercado”. Nosso objetivo era produzir uma IDE destinada a desenvolvedores Java que tivessem conhecimentos em tais padrões e frameworks.

 

Fizemos um pré-lançamento do nosso primeiro MVP em setembro de 2016. Foi aí que percebemos que os nossos primeiros usuários queriam um grau de abstração maior e que seu interesse era programar de forma visual, sem sequer usar as linguagens de programação. Por outro lado, não estavam também muito inclinados a investir seu tempo em aprender angularjs e outros frameworks.

 

Foi aí que tomamos a decisão de fazer outro importante pivotamento. Resolvemos dar uma quinada radical para RAD – Rapid Application Devolopment, na direção do que outros players internacionais chamam de Low Code Platform.

 

Nosso foco sempre foi competir em pé de igualdade com as plataformas internacionais. Por isso o CronApp já nasceu multilíngue.

 

Foi assim que, somente 1 ano depois de nosso primeiro MVP é que lançamos comercialmente o CronApp. A versão atual já possui programação visual por blocos e uma parte de nossas implementações RAD.

 

A ferramenta está em intenso processo de evolução e esperamos que até o final do ano ela já possa ser considerada uma IDE RAD e uma plataforma Low Code, em sua completa acepção.

 

Panorama das empresas de TI no Brasil

 

Embora exista uma crise em curso no Brasil, no segmento de tecnologia, pesquisas demonstram que este mercado continua crescendo.  Esperamos crescer 17% esse ano, enquanto o setor de TI deverá crescer perto de 6% em 2017. O percentual de empresas contratando continua maior do que empresas demitindo, o que sinaliza novamente um resultado positivo para o setor.  

 

E esse cenário é muito promissor para as empresas que desenvolvem softwares e que buscam inovações. 

 

Esperamos que o CronApp seja um importante aliado para o desenvolvimento rápido de aplicações competitivas a nível internacional.

 

O desafio das startups

 

Em primeiro lugar, o que as startups precisam é de velocidade: lançar seus produtos no mercado e conduzir, o quanto antes, o ciclo de aprendizado sobre as preferências de seus consumidores.

 

Esperamos que o CronApp seja um importante aliado, produzindo sistemas em tempo recorde com a possibilidade de gerar novas versões na nuvem, com segurança e escalabilidade.

 

O CronApp também oferece o ambiente ideal para publicar e comercializar os sistemas das startups na nuvem. Através de nosso marketplace, as startups podem conquistar seus novos clientes, no Brasil e no mundo.

 

A equipe de pesquisa e desenvolvimento em Salvador

 

A Techne está montando um escritório em Salvador onde vai concentrar as operações do CronApp. A equipe de pesquisa e desenvolvimento já ficava em Salvador. Agora vamos ampliar o escritório, com novas áreas, como: vendas, suporte ao usuário, controle de qualidade e documentação.

 



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Maurício da Costa Mello
Entrevista

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